sábado, 27 de novembro de 2021

Canção de amor

eu cantaria mesmo que tu não existisses , faria amor , assim ,

com palavras eu cantaria mesmo que tu não existisses porque

haveria de doer - me a tua ausência por isso canto alegre ou triste ,

canto como se cantando tocasse a tua boca , ainda antes da tua presença

derei mesmo , depois da tua morte eu cantaria mesmo que tu não existisses ,

ò minha amiga , doce companheira eu  festejo o teu corpo como um rio , 

onde exausto , chegarei ao mar

sim , eu cantaria mesmo que tu não existisses , porque nada eu diria sem

o teu nome , porque nada existe além da tua vida , da tua pele macia dos teus 

olhos magoados nos teus gestos há animais em liberdade e o brilho doce que 

sò  tem as cerejas è nele que adormeço , e dos teus dedos retiro a luz dos 

arquipélagos os teus gestos são letras , abalas , poemas seus gestos são páginas

inteiras são a tua boca a namorar a minha boca , o cio dos séculos a saciar o tempo

são os teus gestos que me acordam que vestem o silêncio fundo das ravinas e assinalam

a égua dos desertos os teus gestos são musica são lume são respiração do teu olhar a seara

de espigas que ondula no meu corpo assim quero cantar - te , meu amor , para além das morte , para além do tempo


In Joaquim Pessoa




In Joaquim Pessoa
 

Bastava - nos amar

e não bastava o mar

e o corpo ?

o corpo que se enleia ?

o vento como um barco  ;

a navegar pelo mar por um

rio ou uma veia

bastava - nos ficar e não bastava

o mar a querer doer  em cada ideia

já não bastava olhar

urgente ; amar e ficar a fazermos uma

teia respirar respirar atè que  o mar

pudesse  ser maré cheia e bastava respirar

a tua pele molhada de sereia , bastava , sim ,

de ar fazer amor contigo sobre a praia


In Joaquim Pessoa

 

Tudo è paixão

assim me perguntaste

assim te respondi ;


tudo è paixão

como não lamber da tua pele ,

o mel que o desejo fabrica ?


e como a minha boca não colher

o néctar da tua boca ?


ou como não sorver das tuas mãos

o pólen da ternura ?


pode atè não ser amor

mas seja o que for ,

não è pior


In Joaquim Pessoa

 

Morrer de amor è assim

quem morre de tempo certo

ao cabo de um certo tempo

è a rosa do deserto que tem

raìzes no vento


qual a medida de um verso

que fale do meu amor ?


não me chega o universo

porque a meu amor è maior


morrer de amor è assim como

uma causa perdida


eu sei , e falo por mim vou morrer

cheio de vida


digo - te adeus , vou - me embora ,

que os versos que eu te escrever


nunca o lerás , sei agora que nunca

aprendeste a ler


neste dia que se enquadra no tempo

que vai passar


termino esta quadra feita ao gosto

popular


In Joaquim Pessoa
 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Estou mais perto de ti

porque te amo os meu beijos nascem

já na tua boca

não poderei escrever o teu nome com

palavras tu estás em toda parte e enlouqueces - me


canto os teus olhos mas não sei o teu rosto

quero a tua boca aberta em minha boca


e amo - te como se nunca tivesse amado

porque estás em mim mas  ausente de mim


nesta noite sei apenas dos teus gestos e procuro

o teu corpo para além dos meus dedos


trago as minhas mãos distantes do teu peito

sim , tu estàs em toda parte tão por dentro de


 mim tão ausente de mim e estou perto de ti

porque te amo


In Joaquim Pessoa


 

Amei demais

madruguei demais fumei demais

todas as coisas que na vida emprenhei


vejo agora grávidas redondas coisas tais ,

como tais as coisas nas quais nunca pensei


demais foram as sombras mais e mais cada

vez mais ardentes as sombras que tirei do


imenso mar de sol , sem praia ou cais  , de onde

parti sem saber que embarquei


amei demais sempre de mais e o que dei està espalhado

pelos sitio onde vais e pelos anos longos , longos que


passei a procura de ti de mim de ninguém mais e os milhares

de versos que rasguei antes de mim eram perfeitos mais banais


In Joaquim  Pessoa
 

Tenho mais almas que uma

vivemos em nòs inúmero ;

se penso ou sinto , ignoro


quem è que pensa ou sente

sou somente o lugar


onde  se sente ou se pensa

tenho mais almas que uma


 há mais eus do que eu mesmo

toda via indiferente


 a todos faço - os calar ; eu falo


os impulsos cruzados do que sinto

ou não disputam em quem sou


ignoro - os nada ditam a quem me sei;

eu escrevo


In Ricardo Reis

 

Sei

que nunca serei ninguém

sim sei bem que nunca serei

alguém

sei de sobra que nunca terei

uma obra

sei , enfim , que nunca saberei de mim

sim , mas agora , enquanto dura esta hora ,

este luar , estes ramos , esta paz que estamos ,

 deixa - me crer o que nunca poderei ser


In Ricardo Reis
 

Somos estrangeiros

onde quer que estejamos

Lídia ignoramos somos estrangeiros

onde quer que estejamos


Lídia , 

ignoramos somos estrangeiros 

onde quer que morremos , tudo


è alheio nem fala a nossa lìngua

façamos de nòs mesmos o retiro


onde esconder - nos ,tímidos do

insulto do tumulto do mundo


que quer do amor mais do que

não ser dos outros ?


como um segredo dito nos mistérios , seja

sagro por nosso 


In Ricardo Reis
 

È tão suave a fuga deste dia ,

Lídia , que não parece , que vivemos sem duvida que os deuses

não são gratos esta hora , em paga nobre desta fé que temos


na exilada verdade dos seus corpos não dão o alto prémio de nos

deixar ser convivas lúcidos da sua calma herdeiros um momento


do seu jeito de viver toda a vida dentro de um sò momento , Lídia

em que nos afastamos das terrenas angústias recebemos Olímpicas


delícias dentro das nossas almas e sò momento nos sentimos deuses

imortais pela calma que vestimos e a altiva indiferença às coisas


passageiras como quem guarda a coroa da vitória estes fanados louros

de um sò dia guardaremos para termos , no futuro enrugado , perene à


nossa vista a certa prova de que um momento os deuses nos amaram

e nos deram uma hora não nossa , mas do Olimpo


In Ricardo Reis
 

Cada um cumpre o destino

que lhe cumpre , e deseja o destino que seja ;

nem cumpre o que deseja , nem deseja o que 


cumpre como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe , e ali ficamos ;


que sorte nos fez postos onde havemos de sê - lo

não tenhamos melhor conhecimento do que nos


coube de que nos coube cumpramos o que somos

nada mais nos è dado


In Ricardo Reis
 

O erro de querer ser igual alguém

aqui , neste misérrimo desterro  onde nem desterro

estou , habito , fiel , sem que queira , aquele antigo


erro pelo qual sou proscrito o erro de querer ser igual

a alguém feliz em suma quando a sorte deu a cada coração


o único bem de ele poder ser seu


In Ricardo Reis
 

Vive sem horas

quanto mede pesa , e quanto pensas mede

num fluido incerto nexo , como o rio cujas


ondas são ele , assim seus dias vê , e se te vires

passar , como a outrem , cala


In Ricardo Reis
 

Quem nos ama

não menos nos limita

não sò quem nos odeia

ou nos inveja nos limita

e oprime ;


quem nos ama não menos nos limita

que os deuses me concedam que despido


de afecto , tenha a fria liberdade dos píncaros

sem nada

quem quer pouco , tem tudo , quem quer nada

è livre  ;


quem não tem , e não deseja , Homem , è igual

aos deuses


In Ricardo Reis
 

Segue o teu destino ,

rega as tuas plantas, ama as tuas rosas

o resto è a sombra de árvores alheias


a realidade

sempre è mais ou menos

do que nòs queremos

sò nòs somos sempre iguais

a nòs próprios


suave

è viver sò grande e nobre

è sempre  viver simplesmente


deixa a dor nas aras como ex - votos aos deuses

vê de longe a vida nunca a interrogues ela não pode


dizer - te a resposta està além dos deuses mas serenamente

imita o Olimpo no teu coração os deuses são deuses porque


 não se pensam


In Ricardo Reis
 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Toco


 o  peso da tua vida ; a carne que fulge , o sorriso , a inspiração

e eu sei que acertaste os pensamentos 

com mesa e harpa vou para ti com a beleza oculta , o corpo

iluminado pelas luzes longas digo ; eu sou a beleza , seu rosto

e seu durar , teus olhos transfiguram - se , tuas mãos descobrem

a sombra da minha face agarro a tua cabeça  áspera e luminosa ,

e digo ; ouves meu amor ? eu sou aquilo que se espera para as coisas ,

e para o tempo eu sou a beleza inteira , tua vida o deseja para mim se erguem teus olhos de longe tu pròpria me duras e minha velada beleza


In Herberto  Helder

Nem sempre me incendeiam

o acordar da ervas e a estrela despenhada da sua órbita viva .

Porém tu sempre me incendeias .


Esqueço o arbusto impregnado de silêncio

diurno a imagem pungente com os seus dedos


esmagados e ascendido .


Porém , não te esqueçam meus corações de sal

e de brandura entontece meu hálito com a sua sombra ,


tua boca penetra a minha como a espada se perde no arco

e quando gela a mão em sua distância amarga , a lua estola ,


a paisagem regressa ao ventre , o tempo se desfibra invento

para ti a musica , a loucura e o mar


In Herberto Helder
 

Dai - me

um  torso dobrado pela musica , um ligeiro pescoço

de planta , onde uma chama comece a florir o


espírito à tona  da sua face se moverão as águas .

dentro da sua face estará a pedra da noite então


cantarei a exaltante alegria da morte


In Herberto Helder
 

Dai - me

uma mulher tão nova como a resina

e o cheiro da terra com uma flecha


em meu flanco , cantarei e enquanto

manar de minha carne uma videira


de sangue , cantarei seu sorriso ardendo , 

suas mamas de pura substância a curva


quente dos cabelos beberei sua boca , para depois

cantar a morte e a alegria da morte


In Herberto Helder
 

Em cada mulher existe uma morte silenciosa

enquanto o dorso imagina , sob os dedos ,os  bordões da melodia , 

a morte  sobe pelos dedos , navega o sangue , desfaz - se em 

embriaguez dentro do coração faminto Oh cabra no vento e na urze ,

mulher nua sob , as mãos , mulher ventre escarlate onde o sal  põe

o espírito , mulher de pès no branco , transportadora da morte e da alegria


In Herberto Helder
 

Cantar ?

Longamente  cantar

uma mulher com quem

beber e morrer

quando fora se abrir o instinto

da noite e uma ave atravessar

trespassada por um grito marítimo

e o pão for invadido pela ondas

seu corpo arderá imensamente sob 

os meus olhos palpitantes

 Ele imagem vertiginosa e alta de um certo

pensamento de alegria e impudor seu corpo

arderá para mim sobre o lençol mordido por

flores com água

 

Dai - me uma mulher

com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue


com ela encantei a noite

dai - me uma folha viva de erva ,


uma mulher seus ombros beijarei ;

a pedra pequena do sorriso de um 


momento mulher quase incriada , mas 

com gravidade dois seios , com peso


lùbrico e triste da boca seus ombros beijarei

 

Dà - me um torso doirado

pela musica , um ligeiro pescoço de planta ,

onde uma chama comece a florir o espírito


à tona de sua face se moverão às águas , dentro

da sua face estará a pedra da noite então cantarei


a exaltante alegria da morte .


In Herbert  Hélder
 

AS águas que um dia nasceram onde nascestes

o peso jovem da carne aspiram longamente

a nossa vida as sombras que rodeiam o êxtase ,


os bichos que levam ao fim do instinto seu bárbaro

fulgor , o rosto divino impresso no lodo , casa morta ,


a montanha inspirada , o mar , os centauros do crepúsculo aspiram longamente a nossa vida


In Herberto Helder
 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Num dia


 excessivamente nítido dia em que dava vontade

de ter trabalhado muito para nele não ter trabalhado


nada entrevi como uma estrada por entre as árvores

o que talvez seja o grande segredo aquele grande


mistério de que os poetas falsos falam vi que não

há natureza que a natureza não existe que há vales


há planícies  montes há árvores flores ervas que há

 rios e pedras mas que não há um todo a que isso


pertença


que um conjunto real e verdadeiro è uma doença

das nossas ideias

Sò a natureza è divina

e elas não è divina


se falo dela como de um ente

è que para falar dela preciso


usar da linguagem dos homens

que dà personalidade as coisas


e impõe nome as coisas  as coisas

não tem nome nem personalidade


existem e o céu è grande  e a terra

larga e o nosso coração do tamanho


de um punho fechado


bendito seja eu por tudo quanto sei

gozo isso como quem sabe que há o sol
 

Ser real

è a única coisa verdadeira do mundo

todas as teorias todos os poemas


duram mais que estas flores

o tamanho a duração 


não tem importância nenhuma

a natureza è partes sem um todo


isto è talvez o tal mistério que falam

foi isto o que sem pensar nem parar


acertei que deveria ser a verdade que todos

andam achar o que não acham e que è sò eu


porque a não fui achar achei ...

 

Gozo os campos sem reparar para eles

perguntas - me porque os gozo

respondo ;


gozar uma flor è estar ao pè dela

inconscientemente è ter uma noção


do seu perfume nas nossas ideias mais

apagadas


quando reparo não gozo vejo fecho os olhos

e o meu corpo pertence inteiramente ao exterior


de quem fecha os olhos à dureza fresca da terra

cheirosa e irregular e alguma cisa dos ruídos indistintos
 

Sim

existo dentro do meu corpo não trago o sol

nem a lua na algibeira


não quero conquistar mundos porque dormi

mal nem almoçar a terra por causa do estômago


indiferente ?


não naturalmente da terra que se der um salto

està em falso um momento no ar que não è para


nòs e sò contente quando os pès lhe batem outra

vez na terra traz ! na realidade o que não falta !
 

Ter certeza è não estar a ver

primeira pronuncia  de trovoada de depois de amanhã

as primeiras nuvens brancas pairam baixas no céu


mortiço da trovoada de depois de amanhã ?

tenho a certeza mas a certeza è mentira


ter certeza è não estar a ver depois de amanhã

não há o que há è isto um céu azul puro baço


uma nuvem branca no horizonte com um retoque

de sujo em baixo como se viesse negro depois


de amanhã ?


se estiver morto depois de amanhã será outra trovoada

do que seria se eu estivesse


morrido bem sei que a trovoada não cai da minha vista

mas se eu não estiver o mundo será diferente


haverá a menos e a trovoada cairá num mundo diferente

e não serà a mesma trovoada
 

Poema de guerra

Caleidoscópio è bem o retrato do corpo mutilado

semi - desfeito de um qualquer combate anónimo


escrito por mão anónima no  teatro de guerra
 

Há poetas

que são artistas e trabalham nos seus versos

como carpinteiros nas tábuas


que triste não saber fluir

ter que por verso sobre verso


corno quem constrói um verso muro

e ver se està bem e tirar se não està


quando a única casa artística è a terra

toda que varia e està està sempre bem e

 è sempre a mesma


penso nisto como quem respira e olho

para as flores e sorrio nem sei se elas

me compreendem nem eu a elas


sei que a verdade està nelas e em mim

e na nossa comum divindade de nos deixarmos

ir e viver pela terra e levar ao solo pelas estações


contentes e deixar que o vento cante para adormecermos

e não termos sono


domingo, 14 de novembro de 2021

Bendito seja o mesmo sol

de outras terras que  que faz os homens todos meus irmãos

porque todos os homens um momento no dia olham como


eu e nesse momento todo limpo e sensível regressam lagrimosamente  e com um suspiro que mal sentem

ao homem verdadeiro e primitivo que via o sol nascer


e ainda não adorava porque isso è o mais natural que adorar

o ouro e Deus e a Arte e a Moral


 

Sempre

que penso numa coisa trai - a

sò tendo diante de mim devo


pensar nela não pensando

mas vendo - a


não com o pensamento mas com

os olhos


uma è visível existe è para se ver

e  existe para os olhos não tem


que existir para o pensamento  sò existe

para o pensamento e não para os olhos


olho e as coisas existem e existo sò eu
 

A manhã raia não raia

amanhã è uma coisa abstracta

esta não è uma coisa


começamos a ver o sol a esta hora

aqui se o sol matutino dado nas árvores


è belo  è tão belo se chamarmos à manhã

«  começamos a ver o sol »


como è que lhe chamamos a manhã por isso

se não há vantagens em por nomes errados


às coisas nunca lhes devemos por nomes alguns


 

sábado, 13 de novembro de 2021

Ontem foi Dia Mundial da Gentileza


 As pessoas solitárias são as mais gentis

As pessoas tristes sorriem com mais brilho


As pessoas machucadas são as mais sábias

tudo porque elas não desejam ver ninguém

sofrer da forma que elas sofrem


Bom senso


è bom diferenciar gentileza de servidão

não se pode prejudicar a si mesmo na

busca de ajudar aos outros gentileza tem a ver

com bom senso


o que è a gentileza è uma genuína preocupação

com o bem estar dos outros a se sentirem bem ,

sem esperar nada em troca


nunca è cedo para uma gentileza , porque nunca se sabe

quando poderá ser tarde demais 


existe uma relação directa entre bem estar , felicidade

e saúde nas pessoas gentis


silêncio construamos amor nossa morada

na pedra na água no relâmpago no canto

deste poema nesta flor meu amor construamos

amor nossa morada !


neste poema nesta flor na angustia  no sangue

na morte e na vida na esperança em flor desta


seara construamos amor nossa morada , meu amor !
 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Quem conhece , amigo , tais quais fomos ?

Nem da erva humilde se o destino aquece .

Saiba a lei que vive .


De sua natureza murcham rosas

e prazeres se acabam .


Quem nos conhece , amigos tais

quais fomos ? nem nòs os conhecemos .
 

O Deus Pã não morreu ,

cada campo que mostra aos sorrisos de Apolo

os peitos nus de cores cedo ou tarde vereis


por là aparecer o deus Pã , o imortal

não matou outros deuses o triste deus cristão


Cristo è um deus a mais , talvez um que faltava .

Pâ  continua a criar os sons da sua flauta aos ouvidos


de Ceres recumbente nos campos .


Os deuses são os mesmos , sempre claros e calmos

cheios de eternidade e desprezo por nòs , trazendo


o dia e a noite e as colheitas douradas sem ser para nos dar

o dia e a noite e o trigo mas por outro e divino propósito

casual .


 

O ritmo antigo

aos pès descalços , esse ritmo das ninfas ,

repetido , quando sob o arvoredo batem


o som da dança , vòs na alva praia , relembrai ,

fazendo , que escura a espuma deixa ;


vòs infantes , que ainda não tendes cura de ter

cura , responde ruidosa roda , enquanto arqueia


Apolo como um ramo alto , a curva azul que doura ,

 e a perene maré flui enchente ou vazia .
 

Não quero Cleo , teu amor ,


 que oprime

Porque me exige amor .

Quero ser livre .


A esperança è um dever 

do sentimento .

Melhor destino que conhecer - se


 não frui quem mente frui ,

antes , sabendo , ser nada ,

que ignorando :


Nada dentro de nada .


Se não haver em mim poder que vença


As parcas três e as moles de futuro , já

me dêem os deuses o poder de sabe - lo ;


e a beleza , incriàvel por meu sestro , eu

goze externa e dada repetida em meus


 passivos olhos , lagoa que a morte seca .







Quando sinto , penso


 Severo narro . Quando sinto , penso .

Palavras são ideias .


Murmuro , o rio passa , e o que não passa ,

que è nosso , não do rio .


Assim quisesse o verso ; meu e alheio

e por mim mesmo lido . 

Por vezes dou - te o meu nome

e fico com o teu espreito então pelas janelas

de onde se vêem coisas que eu antes nunca


tinha visto coisas que adivinhava mas nunca

quis olhar nessas alturas è meu nome è o teu


olhar e os meus olhos são a  pronúncia do teu

nome que se diz com pequeno brilho molhado


um som pequeno como um regaçar de asas dessas

aves que constroem o ninho na folhagem da fala


e criam raìzes fundas nas palavras vulgares que vulgares

amantes engrandecem quando falam de amor


 

esta liberdade nos concedem os deuses ;

submeter  - mo - nos ao seu seu domínio


por vontade nossa mais vale assim fazermos

porque sò na ilusão da liberdade a liberdade

existe nem outro jeito os deuses sobre quem


 eterno fado posa , usam para seu calmo e possuído

convencimento antigo de que è divina e livre a sua


vida nòs imitando os deuses tão pouco livres como

elo no Olímpico , como quem pela areia ergue castelos


para encher os olhos , ergamos nossas vidas e os deuses 

saberão agradecer - nos o sermos tão como eles

 

Corai - me de Rosas

corai - me em verdade

de rosas -

rosas que se apagam


em fronte a apagar - se

tão cedo !


coroai - me de rosas

e de folhas breves e

basta !
 

Inutilmente

parecemos grandes o mar jaz ;

gemem em segredo os ventos

em Eolos cativos ;


sò as pontas do tridente as vastas

águas franze Neptuno ;


e a praia è alva cheia de pequenos brilhos

sob o sol claro


inutilmente parecemos grandes

nada ; no alheio mundo ,


nossa vista grandeza reconhece

ou com razão nos serve


se aqui um manso mar

meu fundo indício três ondas o apagam ,


que fará o mar que na astra praia Ecoa de Saturno ?
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Sabio

è o que contenta com o espètaculo do mundo ,

e ao beber nem recorda que já bebeu na vida ,

para quem tudo è novo e imarcescìvel  sempre


corremos pâmpanos ,ou eras ou rosas volùteis ,

ele sabe que a vida passa por ele e tanto corta


à flor como a ele de àtrepos  a tesoura mas ele sabe 

fazer que a cor do vinho esconda isto , que o seu sabor


orgíaco apague o gosto às horas como a uma voz chorando

o passar das bacantes e ele espera , contente quase a bebedor


tranquilo e apenas desejando num desejo mal tido que inominável

onda o não molhe tão cedo


 

Nada fica

Nada somos

Um pouco ao sol e ao ar

nos atrasamos da irrespirável

treva que nos pese da humildade

terra imposta , 


cadáveres adiados que procuram

leis feitas ,


estátuas vistas onde findas tudo tem

cova sua se nòs carnes a quem um


íntimo sol dà sangue , temos poente

porque não elas ?


somos cantos cantando contos , nada
 

Nenhuma morte

apagará os beijos e por dentro das casas

onde nos amamos ou pelas ruas clandestinas


das grande cidade livre estarão para sempre 

vivos os sinais de um grande amor , esses


densos sinais do amor e da morte com que se

vive a vida ai estarão de novo as nossas mãos


e nenhuma dor será possível onde nos beijamos

eternamente apaixonados meu amor eternamente


livres prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos

e profundamente no peito dos amantes a nossa alma líquida


e atormentada desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas ardam


violentos de paixão os nossos beijos e os corpos se abracem

mais e se confundam mutuamente violando - se violentando


a noite para que o outro dia afinal , seja possivel


 

desde que te conheço

que esta minha realidade ruiu não que ela me fizesse feliz pelo contrário era tão frágil mas mantinha - me sustentava - me !  hoje sinto rep...